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Justiça Militar torna réus mais 8 PMs da Operação Contenção

Justiça Militar recebe denúncias do MPRJ contra 8 PMs da Operação Contenção por retirar câmeras, invadir casas e furto. Ação deixou 122 mortos.

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A Auditoria da Justiça Militar do Rio de Janeiro recebeu, na quinta-feira (8), três denúncias do Ministério Público do Estado (MPRJ) contra oito policiais militares que participaram da Operação Contenção, a ação nos Complexos da Penha e do Alemão que deixou 122 mortos em outubro de 2025. Com a decisão, os agentes passam a responder a processo por crimes como invasão de domicílio, furto e recusa de obediência, ligada à retirada ou obstrução das câmeras corporais durante a operação.

As acusações foram apresentadas pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp/MPRJ) e divulgadas pelo órgão na sexta-feira (9). A apuração se apoia principalmente nas imagens das câmeras operacionais portáteis (COPs) usadas pela tropa: segundo o MPRJ, mais de 3,6 mil horas de gravações estão sendo analisadas.

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O que dizem as denúncias

De acordo com o MPRJ, cinco policiais retiraram as câmeras das fardas durante a ação, descumprindo instrução normativa da própria Polícia Militar e impedindo o registro regular da operação. São eles o segundo-tenente Roger Pereira Folhadella, os segundos-sargentos Leandro Neves Ribeiro e Emanuel D’Azevedo Ferreira, o subtenente Paulo Cesar da Cruz Telles e o cabo Thiago Leandro da Silva. Um sexto agente, o cabo Iassui Santos Rocha Junior, foi denunciado por obstruir o equipamento que portava.

Parte do mesmo grupo — Roger, Thiago, Iassui e Leandro — também é acusada de invadir uma casa na comunidade depois de arrombar o portão de um imóvel que estava vazio. O subtenente Paulo Cesar foi denunciado ainda por invasão de domicílio e por furtar um picolé da geladeira de uma residência, segundo a acusação.

Em outra área da comunidade, não identificada pelo MPRJ, o subtenente Jefferson Ferreira Braga e o cabo Ewerton Guimarães da Silva também teriam retirado as câmeras das fardas. Conforme a denúncia, o subtenente deixou o equipamento dentro de uma viatura, e o cabo guardou o seu em uma bolsa de hidratação, o que impediu a gravação.

Os nomes citados são de denunciados que agora respondem a processo. Não há, até o momento, condenação, e todos têm direito à ampla defesa. Até a publicação desta reportagem, os veículos consultados não haviam registrado manifestação da Polícia Militar ou das defesas dos agentes sobre as novas acusações.

Balanço das acusações

Segundo o MPRJ, o Gaesp e as promotorias que atuam junto à Auditoria da Justiça Militar já somam seis denúncias contra 17 policiais militares ligados à operação. O conjunto das acusações inclui apropriação de armamento, furto de peças de veículos, invasões de domicílio, constrangimento de moradores, subtração de bens e tentativas de obstruir ou desligar as câmeras corporais.

Os primeiros casos vieram a público em dezembro de 2025, quando seis PMs do Batalhão de Choque foram denunciados. Dois sargentos foram acusados de peculato por, segundo o MPRJ, esconderem em uma mochila um fuzil encontrado em uma casa no Alemão, sem registrá-lo entre o material apreendido. Outros quatro policiais foram acusados de furto qualificado por retirar peças de uma caminhonete na Vila Cruzeiro. Em março de 2026, novas denúncias atingiram dez agentes do Batalhão de Ações com Cães (BAC), acusados de entrar em casas e comércios com chaves mestras, facões e chaves de fenda.

A operação mais letal do país

Deflagrada em 28 de outubro de 2025, a Operação Contenção tinha como objetivo, segundo o governo estadual, conter o avanço do Comando Vermelho e cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão. A ação terminou com 122 mortos, entre eles cinco policiais civis e militares, e 23 presos. É considerada a operação policial mais letal da história do país.

À época, o governo do estado, então chefiado por Cláudio Castro, classificou a ação como um sucesso, e o governador afirmou que os policiais agiram em legítima defesa. Entidades de direitos humanos, moradores e especialistas em segurança pública contestaram a versão oficial e cobraram investigação independente sobre as mortes.

Câmeras no centro da apuração

O MPRJ informou que abriu um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) autônomo, com monitoramento em tempo real da operação e acionamento dos protocolos da ADPF 635, a chamada “ADPF das Favelas”, julgada pelo Supremo Tribunal Federal, que estabelece regras para operações em comunidades do Rio. A investigação incluiu requisição de dados às secretarias de Polícia Militar e Polícia Civil, depoimentos dos responsáveis pelo planejamento e perícias no Instituto Médico Legal.

Em dezembro de 2025, o Gaesp recomendou um protocolo conjunto de atuação em operações policiais para reduzir riscos e conter a letalidade. Em março deste ano, uma nova recomendação tratou do planejamento, da execução e do monitoramento do uso das câmeras corporais.

O que vem agora

Com o recebimento das denúncias, os processos seguem na Auditoria da Justiça Militar, onde os acusados serão ouvidos e as provas, incluindo as gravações, serão analisadas. As denúncias recebidas nesta semana tratam de crimes atribuídos a policiais durante a ação, e não das mortes registradas na operação.

Para os moradores da Penha e do Alemão, o desdobramento mantém em debate o uso das câmeras corporais como ferramenta de controle da atividade policial. Quase um ano depois da operação, os casos mostram que o equipamento, quando usado, tem sido a principal fonte de prova — e que sua retirada passou a ser, ela própria, objeto de acusação.

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