Pesquisas de setembro mostram Lula e Flávio Bolsonaro no limite
Levantamentos do Datafolha e da Quaest divulgados em setembro chegam a resultados opostos sobre o 2º turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Levantamentos do Datafolha e da Quaest divulgados em setembro chegam a resultados opostos sobre o 2º turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Faltando menos de três semanas para o primeiro turno das eleições presidenciais, marcado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para 4 de outubro, o cenário entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) segue sem um favorito definido. Duas pesquisas divulgadas na primeira quinzena de setembro, do Datafolha e da Quaest, chegaram a conclusões diferentes sobre quem estaria à frente em um eventual segundo turno, disputado em 25 de outubro caso nenhum candidato obtenha maioria absoluta dos votos válidos.
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Panorama da disputa a um mês da eleição
Lula concorre à reeleição após pouco mais de três anos e meio à frente do governo federal. Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro — preso desde 2025 e condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado por tentativa de golpe de Estado, além de inelegível até 2030 — teve a candidatura oficializada pelo PL em julho, com o apoio declarado do pai e do irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro. A chapa tem como vice o deputado Alfredo Gaspar (União-AL).
Lula concorre com Geraldo Alckmin (PSB) na vice-presidência, à frente da coligação “Brasil da Esperança”, formada por PT, PCdoB, PV, PSB, PDT e pela federação PSOL-Rede. Também disputam a Presidência Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), que aparecem com percentuais de um dígito nos levantamentos mais recentes.

O que dizem as pesquisas de setembro
O Datafolha, contratado por Folha de S.Paulo e Grupo Globo, ouviu 2.002 pessoas entre 1º e 3 de setembro (margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos). No primeiro turno, em cenário estimulado, Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro com 32%; Augusto Cury tem 7%, Renan Santos e Ronaldo Caiado, 4% cada, e Romeu Zema, 2%. No cenário de segundo turno, o instituto aponta Lula com 46% e Flávio com 44%, dentro da margem de erro.
Já a Quaest, em parceria com a Genial Investimentos, entrevistou 2.004 pessoas entre 10 e 13 de setembro, também com margem de erro de dois pontos. No primeiro turno, Lula tem 36% e Flávio Bolsonaro, 31%. No segundo turno, no entanto, o instituto registra Flávio à frente, com 42% contra 40% de Lula — resultado também dentro da margem de erro, mas em sentido oposto ao do Datafolha.
A pesquisa Quaest aponta ainda rejeição idêntica entre os dois: 55% dos entrevistados afirmam que não votariam em Lula em hipótese alguma, e o mesmo percentual diz o mesmo sobre Flávio Bolsonaro.
Outros presidenciáveis e tendências de alianças para o 2º turno
Embora Lula e Flávio Bolsonaro liderem todas as pesquisas, os demais presidenciáveis vêm ganhando relevância nas análises sobre um eventual segundo turno. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que tem como vice o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, intensificou nas últimas semanas o discurso de que seria o nome mais competitivo para enfrentar Lula, argumentando ter rejeição menor que a de Flávio Bolsonaro e a do próprio presidente.
Levantamento do instituto Real Time Big Data mostrou Caiado com 39% de rejeição, ante 48% de Lula e 50% de Flávio, e o colocou à frente do petista em simulação de segundo turno (44% a 43%). Segundo a mesma pesquisa, em um cenário sem Flávio Bolsonaro na disputa, Caiado seria o principal destino de seus eleitores (25%), seguido por Renan Santos (22%) e Romeu Zema (20%).
Zema, ex-governador de Minas Gerais e filiado ao Novo, tem vice o senador Eduardo Girão (Novo-CE) e mantém discurso liberal na economia; em cenários de segundo turno simulados pelo Datafolha, aparece atrás de Lula por margem mais ampla que Flávio e Caiado (48% a 39%). Renan Santos, ligado ao movimento Vem Pra Rua e concorrendo pelo Missão ao lado do vice Aroldo Medina, disputa parte do mesmo eleitorado bolsonarista de Flávio.
Já Augusto Cury, psiquiatra e escritor que concorre pelo Avante com o vice Júlio Delgado à frente da coligação “Brasil dos Nossos Sonhos”, tem defendido bandeiras próprias, como a adoção do semipresidencialismo e políticas de saúde mental, sem alinhamento declarado a nenhum dos dois polos da disputa.
Um dado chama atenção quanto à transferência de votos em um eventual segundo turno: segundo a pesquisa Real Time Big Data, 67% dos eleitores de Flávio Bolsonaro afirmam que poderiam migrar o voto para outro candidato de oposição a fim de evitar a reeleição de Lula, contra apenas 27% dos eleitores do presidente que considerariam trocar de candidato. O dado é lido por analistas como um indício de que o campo de oposição a Lula tem, hoje, maior disposição a se consolidar em torno de um nome único do que o campo governista.
Avaliação de governo e desafios para Lula
A mesma pesquisa Quaest mediu a avaliação da gestão Lula: 43% classificam o governo como ótimo ou bom, ou aprovam a administração, enquanto 50% reprovam ou avaliam como ruim ou péssimo. O quadro de aprovação dividida é apontado por analistas como um dos fatores que mantêm a disputa presidencial competitiva, mesmo com a vantagem histórica que presidentes em exercício costumam ter em pesquisas de intenção de voto.
O caso Master e o desgaste de Flávio Bolsonaro
A candidatura de Flávio Bolsonaro também foi afetada pela repercussão de um áudio, vazado em maio, em que o senador negocia com o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, recursos para custear um filme sobre Jair Bolsonaro — episódio que ficou associado ao chamado caso Master, sob investigação da Polícia Federal. Para o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, o senador “dificilmente consegue se recuperar de um baque como esse” e tende a “perder a capacidade de encantar os moderados”.
Já Eduardo Grin, da FGV EAESP, avalia que o desgaste deve atingir sobretudo “o eleitor mais independente, da base da direita não bolsonarista”, o que pode ser decisivo no resultado final. Grin pondera, no entanto, que a polarização entre petismo e bolsonarismo deve permanecer forte, sem beneficiar de forma significativa candidaturas de terceira via.
Os grupos que podem decidir o segundo turno
Cientistas políticos ouvidos por veículos de imprensa apontam ao menos quatro segmentos do eleitorado como decisivos em um eventual segundo turno. Um deles é o grupo de eleitores que não se identifica nem com a esquerda nem com a direita — entre 10% e 15% do total, segundo Yuri Sanches, do instituto AtlasIntel. “Essa eleição vai ser decidida por uma parcela muito pequena do eleitorado”, afirma. A cientista política Luciana Veiga, da Unirio, observa que esse contingente “não tem um perfil claro” e tende a definir o voto apenas na reta final da campanha.
Os eleitores evangélicos, historicamente mais favoráveis a candidatos da direita bolsonarista, também estão no radar das campanhas: pesquisas mostram Flávio Bolsonaro com vantagem de mais de dez pontos sobre Lula nesse grupo, embora a professora Nara Pavão, da FGV EESP, diga ter se surpreendido com o impacto que as acusações do caso Master tiveram justamente entre esses eleitores. Mulheres — maioria do eleitorado — e eleitores acima de 60 anos, mais alinhados a Lula em pesquisas recentes, completam a lista de segmentos que devem pesar na disputa, assim como o resultado na região Sudeste, que concentra cerca de 42% do colégio eleitoral nacional.
Calendário até a votação
O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão para o primeiro turno vai até 1º de outubro. A votação do primeiro turno ocorre em 4 de outubro; caso haja segundo turno, ele será realizado em 25 de outubro. Os eleitos tomam posse em 1º de janeiro de 2027.
Conclusão
Com pesquisas de institutos diferentes apontando resultados opostos para o segundo turno — ambos dentro da margem de erro estatístico —, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro segue, a três semanas da votação, sem um favorito consolidado. Fatores como o desdobramento do caso Master, o desempenho de Flávio Bolsonaro entre eleitores evangélicos e moderados, a capacidade de mobilização de Lula junto a mulheres e eleitores mais velhos, e o movimento dos demais presidenciáveis — sobretudo a tentativa de Ronaldo Caiado de se firmar como alternativa de menor rejeição no campo de oposição — devem ser determinantes para o resultado de outubro.
