Ponte Rio-Niterói tem 20 de 44 luzes náuticas apagadas ou com falha
Relatório da Marinha mostra 20 de 44 luzes da Ponte Rio-Niterói com falha e radar desligado desde 2021. Boias no Santos Dumont e Charitas também falham.
Quase metade das luzes de sinalização náutica da Ponte Rio-Niterói está apagada ou com defeito. Relatório da Marinha do Brasil referente a setembro de 2026 aponta que 20 dos 44 sinais luminosos instalados na estrutura não funcionavam corretamente, o que levou o índice de eficácia da ponte a 54,55%, bem abaixo do mínimo de 95% exigido pelas normas brasileiras para a navegação.
Os dados constam do relatório mensal de eficácia produzido pelo Centro de Auxílios à Navegação Almirante Moraes Rego (CAMR), ligado ao Comando do 1º Distrito Naval, assinado em Niterói no dia 8 de outubro. O documento foi analisado pela Revista Sociedade Militar e repercutido neste domingo (18) pelo Diário do Rio. Além da ponte, o levantamento mostra falhas em boias diante do Aeroporto Santos Dumont, na estação das barcas em Charitas e em terminais privados espalhados pela Baía de Guanabara.
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A sinalização náutica é o conjunto de luzes, boias, faroletes e equipamentos de radar que orientam comandantes de navios, rebocadores, barcas e embarcações de pesca, especialmente à noite e com pouca visibilidade. Na ponte, as luzes indicam os vãos de passagem e os pilares, pontos que precisam ser evitados por embarcações que circulam por um dos trechos de maior tráfego marítimo do país.
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Falhas antigas e radar desligado há mais de cinco anos
Segundo o relatório, a eficácia da sinalização da ponte, administrada pela concessionária Ecoponte, ficou em 54,55% em setembro e em 55,81% na média dos últimos 12 meses. Algumas falhas se arrastam há anos. A luz de entrada do pilar 51 está registrada como apagada desde 24 de outubro de 2023. Entre os pilares 100 e 101, há luzes apagadas ou com alcance reduzido desde fevereiro de 2024.
O caso mais antigo é o do RACON, sigla em inglês para o farol de radar que devolve um sinal identificável às telas das embarcações e ajuda a localizar a estrutura mesmo com neblina ou chuva forte. O equipamento da ponte consta como inoperante desde 10 de março de 2021. Pela norma da Marinha, falhas desse tipo deveriam, em regra, ser corrigidas em até 72 horas.
Pela pista da ponte passam cerca de 150 mil veículos por dia, segundo a Ecoponte. Embaixo dela, circulam navios de carga, embarcações de apoio à indústria de petróleo, rebocadores e as barcas que ligam o Rio a Niterói.
Boias irregulares no Santos Dumont e em Charitas
O levantamento também aponta problemas fora da ponte. Diante do Aeroporto Santos Dumont, administrado pela Infraero, a boia “Santos Dumont Noroeste” está irregular desde 16 de maio de 2025. O conjunto de quatro sinais do aeroporto registrou eficácia de 75% em julho, agosto e setembro deste ano. As boias marcam a área de segurança da cabeceira da pista, que deve ficar livre de embarcações. Em janeiro de 2019, barcos de pesca entraram nessa área e pousos e decolagens ficaram suspensos por cerca de 30 minutos.
Em Niterói, o sistema de sinalização das Barcas Rio teve três de cinco sinais irregulares em setembro, com eficácia de 40% no mês e de 36,66% em 12 meses. As boias nº 1 e nº 2 de Charitas, estação usada por mais de 7 mil passageiros por dia, estão irregulares desde outubro de 2025 e julho de 2024, respectivamente. Na Ilha do Governador, o farolete do Cocotá aparece como destruído desde 11 de outubro de 2024.
Terminais privados abaixo do padrão
Dos 28 sistemas de sinalização avaliados no estado, 13 ficaram abaixo dos índices recomendados pela Associação Internacional de Sinalização Marítima (IALA), que vão de 97% a 99,8%, conforme a importância do sinal. Onze não alcançaram nem o piso nacional de 95% previsto na norma NORMAM-601. Entre eles estão a Refinaria de Manguinhos (40%), o terminal da Cosan (66,67%), o da BHGE (77,78%), o terminal de GNL da Petrobras (80,95%), o da Ternium (83,33%) e o Terminal Almirante Tamandaré (87,88%).
Os sinais mantidos diretamente pelo CAMR tiveram eficácia de 95,80% em setembro, mas de 92,96% na média de 12 meses. Quando sistemas privados ficam abaixo do mínimo, a Capitania dos Portos deve notificar os responsáveis e pode emitir avisos aos navegantes, restringir o tráfego ou até interditar áreas.
O que dizem a Marinha e especialistas
Em resposta à Revista Sociedade Militar, a Marinha atribuiu as falhas a “condições meteorológicas adversas, ação da maresia, vandalismo/furto de equipamentos de sinalização”, além da dificuldade de acesso a alguns pontos. A força informou que adota “ações contínuas de otimização logística” e emprego de novas tecnologias, e que a gestão de equipes e navios é “constantemente adaptada à realidade orçamentária do país”. A Marinha afirmou ainda que atingir os padrões da IALA “constitui uma meta institucional contínua”, mas não apresentou prazo para normalizar os sinais abaixo do padrão. As reportagens publicadas até agora não trazem manifestação da Ecoponte nem da Infraero sobre as falhas apontadas.
Especialistas ouvidos pelas publicações afirmam que avisos aos navegantes não substituem um sinal em funcionamento. Um faroleiro aposentado da Marinha afirmou ao Diário do Rio que “sinal apagado ou fora da característica é sempre um risco à navegação”. O técnico em sinalização náutica Airton Monteiro, registrado no CRT-RJ, disse que “a sinalização náutica no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, simplesmente tem vários sinais apagados há muito tempo” e defendeu que concessionárias, portos e terminais contratem profissionais habilitados para a manutenção.
Histórico de acidentes na baía
O tema ganha peso diante do histórico recente da Baía de Guanabara. Em 14 de novembro de 2022, o cargueiro São Luiz, abandonado na baía desde 2016, rompeu a corrente que o prendia durante uma ventania, ficou à deriva e atingiu a Ponte Rio-Niterói. A via foi totalmente fechada naquela noite para avaliação de danos e parte das faixas seguiu interditada no dia seguinte para reparo do guarda-corpo. A Marinha abriu inquérito para apurar responsabilidades.
Embora aquele acidente não tenha sido causado por falha de sinalização, o episódio mostrou o impacto que um choque contra a estrutura pode ter sobre a mobilidade de Rio, Niterói, São Gonçalo e de toda a Região Metropolitana, que dependem da ligação diariamente.
Próximos passos
Com previsão de chuva para os próximos dias no Rio, a cobrança por manutenção tende a aumentar. Cabe à Capitania dos Portos fiscalizar os operadores responsáveis pelos sinais irregulares, entre eles a concessionária da ponte, a Infraero e a operadora das barcas. Até a publicação desta reportagem, não havia cronograma divulgado para a recuperação das luzes da Ponte Rio-Niterói nem para a reativação do RACON, desligado desde 2021.



