PF vê vazamento de operação e venda de agenda do Procon a postos no RJ
PF suspeita que escrivão avisou alvos da Unha e Carne e que servidores do Procon-RJ vendiam datas de fiscalização a rede de postos. Entenda.
A Polícia Federal suspeita que a sexta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada em julho contra uma rede de postos de combustíveis acusada de lavar dinheiro no Rio, vazou para os investigados antes de sair às ruas. A suspeita consta do relatório que fundamentou os pedidos de prisão cumpridos nesta quinta-feira (15), na oitava fase da operação, e inclui ainda indícios de que servidores ligados ao Procon-RJ e à Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor vendiam ao grupo, com antecedência, datas e horários de fiscalizações em postos da Região Metropolitana.
Escrivão da PF é suspeito de alertar alvo
Segundo o relatório, revelado pelo jornal O Globo e detalhado pela CNN Brasil, o principal suspeito do vazamento é Fábio Henrique Ferreira dos Santos, escrivão lotado na Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários. Ele teria mantido contato com o policial civil Pablo Jukia Felix Ferreira, o Pablo Russo, apontado pela PF como o operador que controlava cerca de 43 postos registrados em nome de terceiros.
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE:
Entre 6 de abril e 6 de julho deste ano, os dois teriam trocado ao menos 13 mensagens por WhatsApp com a função de mensagens temporárias ativada, o que impediu a recuperação do conteúdo. Nos dias 3 e 4 de julho, foram registradas cinco ligações de voz entre eles, também sem registro do teor. Em 6 de julho, véspera da sexta fase, o escrivão teria perguntado a Russo se ele estava em casa e, diante da resposta positiva, ido pessoalmente ao endereço.
No dia da operação, a PF recebeu denúncia anônima de um morador do condomínio em Niterói onde vivia um dos alvos. De acordo com o relato, na semana anterior o investigado usou vários carros, com ajuda de terceiros, para retirar do imóvel objetos que pudessem incriminá-lo. Para os delegados, o conjunto de elementos sustenta “fundada suspeita” de “repasse antecipado e não autorizado de informações sigilosas”. A PF pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) o afastamento do servidor das funções e a proibição de acesso às dependências e sistemas da corporação. O próprio relatório trata o ponto como linha de investigação, e não como comprovação de responsabilidade criminal.
Leia também
- Operação mira PMs suspeitos de ajudar o CV; três são presos no Rio
- Operação contra milícia de Juninho Varão mira extorsão em Nova Iguaçu
- Tiroteio entre PMs na Gardênia Azul mata subtenente do Bope
Agenda de fiscalização vendida aos postos
O segundo eixo do relatório envolve a defesa do consumidor. Segundo a PF, a organização comprava informações sigilosas sobre fiscalizações para evitar multas e flagrantes de adulteração nas bombas. Um coordenador do Balcão do Consumidor do Procon-RJ e um servidor comissionado da Secretaria de Defesa do Consumidor teriam fornecido as datas, repassadas a Russo por um advogado.
Em 13 de abril, o grupo teria recebido o cronograma semanal oficial de fiscalizações; em 16 de abril, o horário exato de uma ação. Um áudio de 15 de abril, citado na investigação, registra o aviso: “Amanhã vai ter fiscalização do Procon/Rio em São Gonçalo”, acompanhado do pedido para que todos ficassem “de alerta”. Também teriam sido repassadas fotos e dados de um veículo oficial de fiscalização. No relatório, os investigadores falam em “uma indecorosa troca de ‘favores'” e em “evidente mercancia da função pública”.
Impacto para o consumidor
A suspeita atinge diretamente quem abastece na Região Metropolitana. Fiscalizações do Procon em postos verificam, entre outros pontos, a quantidade de combustível entregue pelas bombas e a exibição correta de preços. Se as datas eram conhecidas antes, as inspeções perdiam o efeito surpresa, condição considerada essencial para identificar fraudes. Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, 112 empresas tiveram as atividades suspensas e os bens sequestrados, entre elas 96 postos de combustíveis. Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o grupo movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.
Contexto da operação
Iniciada em dezembro de 2025, a Unha e Carne começou com a apuração de vazamento de dados de operações contra o Comando Vermelho e levou à prisão do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar. Na oitava fase, foram presos o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), apontado pela PF como articulador político do grupo, o delegado e ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim, os policiais civis Pablo Russo, Giovanni Gaspar Fernandes e José Carlos Alves de Souza Júnior, além de Christiano Gaspar Fernandes, secretário de Ordem Pública de Belford Roxo. Foram cumpridos seis mandados de prisão e 16 de busca em sete municípios, entre eles Niterói e São Gonçalo.
O que dizem os citados
A Corregedoria-Geral da Polícia Civil informou que apoia a ação da PF, que “não compactua com qualquer desvio de conduta” e que adotará medidas administrativas e disciplinares cabíveis. O advogado de Marcus Amim, Thiago Minagé, disse aguardar acesso ao cliente e à decisão antes de se manifestar. As defesas dos irmãos Gaspar Fernandes afirmaram não ter tido acesso aos autos. Até a publicação desta reportagem, não foram localizadas manifestações das defesas de Canella, de Pablo Russo, do escrivão citado, nem posicionamentos públicos do Procon-RJ, da Secretaria de Defesa do Consumidor e da Polícia Federal sobre os servidores mencionados. O espaço segue aberto. Nenhum dos investigados foi condenado.
Próximos passos
Caberá ao STF decidir sobre o afastamento do escrivão e sobre a manutenção das prisões. No âmbito estadual, a suspeita sobre servidores da defesa do consumidor deve pressionar o governo por apurações internas e por revisão dos protocolos de sigilo das fiscalizações. Para Canella, eleito com 197.178 votos para a legislatura que começa em fevereiro de 2027, a prisão preventiva abre ainda a discussão sobre diplomação e posse na Alerj.



