Flávio Bolsonaro deixa o país e vai aos EUA após ordem de Moraes
Senador do RJ derrotado por Lula deixa o Brasil rumo aos EUA sem entregar passaportes exigidos por Moraes. PT pede prisão. Veja o que se sabe.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial de domingo (25), deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos na terça-feira (27), segundo a Polícia Federal e fontes do governo americano ouvidas por veículos como Reuters, The New York Times e CNN Brasil. A saída ocorreu sem que ele entregasse os passaportes, como havia determinado o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O caso dominou as redes sociais ao longo do dia. No X, as hashtags #FlavioFugitivo e #FLAVIOBOLSONAROFUGIU chegaram ao topo dos assuntos mais comentados do país, ao lado de termos como “Moraes”, “Estados Unidos” e “Fuga”. Até a noite de terça, o senador não havia se manifestado publicamente sobre a viagem.
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A situação tem peso particular para o Rio de Janeiro: Flávio é um dos três senadores do estado e venceu no território fluminense no segundo turno, com 53,10% dos votos válidos, apesar da derrota nacional para Lula, reeleito com 51,76%.
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Ordem de Moraes e prazo descumprido
Na segunda-feira (26), agentes da PF abordaram o senador em Brasília e o intimaram a cumprir a decisão de Moraes. A ordem determinava a entrega dos passaportes comum e diplomático, proibia a saída do país e vedava contato com o advogado Willer Tomaz, também investigado no STF. O prazo para a entrega terminou às 11h de terça, sem cumprimento.
No mesmo dia da intimação, Flávio publicou um vídeo criticando a medida. “Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar”, afirmou, segundo a Jovem Pan. Na gravação, disse ainda: “Eu nunca pensei em sair do país”. Sua assessoria também divulgou que ele “nunca pensou em deixar o Brasil”.
De acordo com a CNN Brasil, os advogados relataram que o último contato com o senador ocorreu às 16h30 de segunda e que haveria um encontro na terça para recolher os documentos, o que não aconteceu. Com o fim do prazo, a PF cancelou os dois passaportes, o que os bloqueia nos sistemas migratórios de portos e aeroportos, e informou que vai comunicar o descumprimento ao ministro.
Rota ainda sem confirmação oficial
O trajeto da saída segue cercado de versões. O site argentino Infobae publicou que Flávio teria cruzado a fronteira e embarcado em Puerto Iguazú, na Argentina, num jato particular Gulfstream G400 com destino aos Estados Unidos. O governo de Javier Milei negou. A Direção Nacional de Migrações informou que “não registrou qualquer entrada de Flávio Bolsonaro na República Argentina”, e o porta-voz da Casa Rosada, Adrián Ravier, afirmou que não houve pedido de asilo.
Ainda assim, a Reuters ouviu um aliado próximo e uma fonte do governo americano que confirmaram a viagem. O New York Times disse ter confirmado a chegada com duas autoridades dos EUA, e a CNN Brasil informou que ele desembarcou com a mulher e as duas filhas. A cidade de chegada e a eventual intenção de pedir asilo não foram divulgadas. A Embaixada dos EUA não comentou.
O que é investigado
O inquérito que motivou a ordem apura suposta lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz e o financiamento de “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. O caso chegou ao STF em 8 de outubro e foi distribuído a Moraes no dia 16. Segundo a Gazeta do Povo, Flávio responde a três inquéritos no Supremo, incluindo um sobre suposta relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O senador e os demais citados negam irregularidades, e a investigação não implica culpa.
A decisão de Moraes foi tomada depois que Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão do senador e morador dos EUA, afirmou em um programa americano: “se meu irmão não vencer, sou a favor de que ele deixe o país. Sim, com certeza”.
Pedido de prisão e reação de aliados
Também na terça, os deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG), além da deputada eleita Ana Elisa Santos (PT-MG), pediram a Moraes a prisão preventiva do senador e, caso ela seja decretada, sua inclusão no alerta vermelho da Interpol. Para o grupo, a não entrega dos documentos “configura descumprimento voluntário de obrigação cautelar”.
Do lado da oposição, aliados afirmam que Flávio se considera alvo de perseguição política. O deputado Mauricio Marcon (PL-RS), vice-líder da oposição na Câmara, escreveu no X que o senador saiu do país “rumo ao exílio”. Nos bastidores, porém, integrantes do PL avaliam que o episódio desgasta o partido e cobram uma explicação pública do senador. Na véspera, o próprio PL havia reconhecido oficialmente a vitória de Lula, enquanto Flávio pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a cassação da chapa vencedora.
O que pode acontecer agora
Especialistas ouvidos pela CNN Brasil avaliam que o descumprimento abre caminho para uma prisão preventiva. A professora de Direito da FGV Luisa Ferreira disse que Moraes “tem nas mãos a possibilidade de decretar a prisão preventiva”. Para o advogado José Paes Neto, especialista em Direito Eleitoral, a saída é “a pior escolha possível para a defesa”, e um eventual pedido de extradição aos EUA seria um “caminho longo, incerto e com forte componente político”.
Por ser parlamentar, Flávio só poderia ser preso em flagrante em caso de crime inafiançável. As investigações continuam mesmo com ele fora do país. O mandato do senador, iniciado em 2019, vai até o início de 2027, e caberá ao STF definir se os casos permanecem no tribunal ou descem à primeira instância, conforme a ligação dos fatos com o exercício do cargo.
Conclusão
Dois dias após a eleição, o principal nome da oposição no Rio está fora do país, com passaportes cancelados, sob investigação no STF e alvo de um pedido de prisão. Os próximos passos dependem da manifestação de Moraes e da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre o descumprimento e da eventual confirmação oficial do paradeiro do senador. Para o eleitorado fluminense, que deu maioria a Flávio nas urnas, fica a incerteza sobre a atuação de um de seus representantes no Senado nos últimos meses do mandato.
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