Cedae Saúde: ex-dirigentes sob auditoria compraram clube em Portugal
Ex-chefes da Cedae Saúde, alvo de auditoria que vê desvios de R$ 400 mi, viraram sócios de clube em Portugal. Castro deve R$ 140 mil ao plano.
Dois ex-dirigentes citados na auditoria que apontou indícios de desvios superiores a R$ 400 milhões na Cedae Saúde tornaram-se sócios de um clube de futebol em Portugal durante o período investigado. A informação foi divulgada no domingo (11) pela TV Globo e pelo g1, com base em documentos ligados à auditoria contratada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. As defesas contestam as conclusões, e os próprios documentos não comprovam que dinheiro da entidade tenha sido usado no negócio.
Quem são os sócios e o que foi comprado
Segundo a reportagem, Eric Frederik Gualberto, ex-presidente da Cedae Saúde, e Antônio Carlos dos Santos, ex-diretor financeiro da Cedae, passaram a integrar em agosto de 2025 o grupo que adquiriu o Amora Futebol Clube, equipe portuguesa administrada por uma Sociedade Anônima Desportiva (SAD). A operação ocorreu dentro da janela analisada pelos auditores, que examinaram a gestão da caixa de assistência entre 2023 e 2026.
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Os documentos divulgados, porém, não estabelecem relação direta entre os recursos sob suspeita e a compra do clube. Esse ponto é central: até aqui, trata-se de indícios apontados em auditoria, sem denúncia formal, processo aberto ou decisão judicial.
O que a auditoria encontrou
O levantamento foi realizado pela consultoria Grant Thornton, com acompanhamento do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da própria Cedae. A auditoria foi autorizada por decreto do governador em exercício, Ricardo Couto, que determinou a revisão de contratos de secretarias, autarquias e empresas públicas do estado.
Entre os principais achados estão pagamentos de cerca de R$ 95 milhões a quatro empresas ligadas a uma offshore atribuída a Gualberto, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. Outro ponto destacado envolve as empresas de tecnologia ZIL Projetos Ltda. e T7, que receberam aproximadamente R$ 48 milhões entre junho de 2023 e junho de 2026. De acordo com a reportagem, o setor de tecnologia da entidade contava com apenas um computador e um jovem aprendiz. A atual direção suspendeu os pagamentos a essas empresas.
Os auditores também relataram que arquivos com nomes de fornecedores e registros contábeis de dezembro de 2023 a abril de 2026 haviam sido apagados. Os dados foram recuperados durante o trabalho de apuração.
Há ainda uma comparação de repasses: na gestão anterior, a Cedae transferia em média cerca de R$ 20 milhões por mês para custear a caixa de assistência; atualmente, o valor gira em torno de R$ 6 milhões, uma redução de aproximadamente 70%. A própria reportagem ressalta que essa diferença, isoladamente, não prova desvio.
Ex-governador aparece como beneficiário
A apuração também revelou que o ex-governador Cláudio Castro constava como beneficiário do plano de saúde da Cedae Saúde, embora nunca tenha sido funcionário da companhia. As regras da entidade limitam o benefício a empregados, dependentes, aposentados e pensionistas. Segundo a atual administração, Castro acumulou dívida de cerca de R$ 140 mil com despesas médicas, foi notificado para quitá-la e teve o plano cancelado em agosto, após período de inadimplência.
Em nota, Castro afirmou que nunca pediu adesão ao plano, que foi informado pela então diretoria de que tinha direito ao benefício e que recebeu a carteirinha da própria entidade. Ele disse que nunca recebeu boletos ou cobranças, que soube da dívida há cerca de uma semana e que vai pagar o valor.
O que dizem as defesas
A defesa de Eric Gualberto repudiou as acusações. Os advogados afirmam que ele foi o principal prejudicado no episódio, por ter sido afastado do cargo sem oportunidade de apresentar defesa, e questionam a legalidade e a imparcialidade da auditoria. Segundo os representantes, medidas judiciais serão adotadas. A reportagem não registrou manifestação de Antônio Carlos dos Santos.
Gualberto foi exonerado da presidência da Cedae Saúde em 23 de junho de 2026. Foi a partir da troca de comando que a nova diretoria iniciou o levantamento que resultou no relatório.
Impacto para 17 mil beneficiários
Criada em 1988, a Cedae Saúde administra a assistência médica de cerca de 17 mil pessoas, entre funcionários da ativa, dependentes, aposentados e pensionistas da companhia de águas. Para esse público, a suspeita de desvios levanta preocupações sobre a sustentabilidade financeira do plano e a continuidade do atendimento, sobretudo diante da queda nos repasses mensais.
O caso também reacende o debate sobre a governança de entidades vinculadas a empresas estatais, que movimentam recursos de origem pública mas nem sempre estão sujeitas aos mesmos mecanismos de controle aplicados diretamente à administração estadual.
Próximos passos
O relatório da auditoria será encaminhado às autoridades, entre elas o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que poderá aprofundar a investigação e, se entender cabível, propor ações na Justiça. Também caberá aos órgãos de controle avaliar a inclusão de beneficiários fora das regras do plano e a destinação dos pagamentos às empresas citadas.
Até que haja investigação formal, os apontamentos permanecem no campo dos indícios. A apuração do MPRJ deverá esclarecer se houve de fato desvio de recursos, quem seriam os responsáveis e se há ligação entre o dinheiro da caixa de assistência e os negócios privados dos ex-dirigentes.


