MENU
cropped-use-marreiro.gif
Geral

HRW e Defensoria cobram respostas um ano após Operação Contenção

HRW diz que nenhuma das 122 mortes foi filmada por câmeras corporais; Defensoria pede R$ 50 mi. Veja os dados e o que dizem governo e MPRJ.

Moradores da Penha levam corpos à Praça São Lucas após a Operação Contenção, em 28 de outubro de 2025
Moradores levam corpos à Praça São Lucas, na Penha, após a Operação Contenção, em 28/10/2025. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Um ano depois da operação policial mais letal da história do Rio, duas cobranças chegaram na mesma semana ao poder público fluminense: a Human Rights Watch (HRW) divulgou na quarta-feira (28) um relatório que acusa falhas graves na apuração da Operação Contenção, e a Defensoria Pública do Estado ajuizou ação civil pública pedindo R$ 50 milhões em reparação coletiva aos moradores da Penha e do Alemão. A ação de 28 de outubro de 2025 deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais.

O relatório da organização internacional, intitulado “Uma estratégia de morte”, analisou cerca de 9 mil páginas da investigação do Ministério Público do Rio (MPRJ), 122 laudos de necropsia, mais de 4 mil horas de imagens de câmeras corporais e 41 entrevistas. A principal conclusão é que nenhuma das mortes aparece registrada nas gravações fornecidas pela Polícia Militar. A HRW também aponta que, em 36% dos momentos em que se ouvem disparos nas imagens analisadas, as lentes estavam obstruídas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE:

A Operação Contenção mobilizou cerca de 2,5 mil policiais civis e militares nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte, contra o Comando Vermelho. Segundo dados citados pela imprensa, 99 pessoas foram presas no dia, 17 delas com mandado e 82 em flagrante, e foram apreendidas 122 armas, entre elas 96 fuzis.

Leia mais:

O que diz o relatório da HRW

De acordo com a organização, a análise das necropsias das 117 pessoas que não eram policiais mostra que 73 vítimas tiveram quatro ou mais disparos, mais de 40% foram atingidas na cabeça e quase 75% levaram tiros nas costas. A HRW afirma ainda que corpos foram levados à Praça São Lucas, na Penha, sem perícia no local, e que a Divisão de Homicídios não se preparou para a apuração, embora tenha sido informada da operação com uma semana de antecedência, segundo reportagem que cita o relatório.

O texto também recorda que o então governador, Cláudio Castro, classificou a operação como “sucesso”. A entidade recomenda investigação independente de cada morte, inclusive das decisões de comando, e a apresentação, pelo próximo governador, de projeto de lei para separar a perícia da Polícia Civil. O novo chefe do Executivo assume em 6 de janeiro.

Defensoria quer reparação coletiva

A ação civil pública da Defensoria, ajuizada pelo Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), pede R$ 50 milhões a serem aplicados em saúde, educação, esporte, lazer e atendimento psicossocial nas comunidades atingidas. Trata-se de um pedido ainda sem decisão judicial. O governo estadual poderá apresentar defesa; até a publicação desta reportagem, não havia manifestação pública sobre a ação.

MPRJ, câmeras e processos

O MPRJ, que conduz um procedimento investigatório sobre as mortes, já apresentou 12 denúncias contra 28 policiais militares, por crimes como furto, peculato, violação de domicílio e constrangimento, e a Justiça recebeu as ações. Nenhuma das denúncias citadas trata de uso ilegal da força, ponto destacado pela HRW. O promotor Fabio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), disse que, até o momento, não há “nenhuma imagem que especificamente seja vinculada a qualquer uma das 122 mortes”, atribuindo o quadro a fatores como obstrução, câmeras desligadas, falta de bateria e policiais que rastejavam na mata.

Documentos do governo enviados ao Supremo Tribunal Federal indicam que mais de 70% dos policiais não usavam câmeras no dia. A versão das forças de segurança é que as 117 pessoas que não eram policiais morreram em confrontos armados.

Balanço divide especialistas

Doze meses depois, os indicadores locais apontam em sentidos diferentes. O Fogo Cruzado registrou 41 tiroteios na região nos 12 meses anteriores à operação e 16 no período seguinte, queda de 61%. Segundo relatórios do governo ao STF, ao menos 33 alvos de mandados continuam foragidos. Pesquisa Quaest divulgada menos de um mês após a ação apontou 67% de aprovação e 25% de desaprovação.

Para a pesquisadora Carolina Grillo, da UFF, ouvida pelo g1, “o território continua totalmente sob controle do Comando Vermelho”. Já o especialista Alessandro Visacro avalia que iniciativas isoladas “não surtem efeito” diante do arsenal do crime organizado.

O que vem a seguir

Os próximos passos dependem do Judiciário, que analisará o pedido da Defensoria e as ações penais contra os policiais, e do MPRJ, que ainda apura as 117 mortes. Segundo o promotor do Gaesp, a PM deve ampliar câmeras e baterias, e a Polícia Civil prevê adquirir câmeras, mas o governo estadual só projeta nova licitação para março de 2027. Nos relatos consultados, governo, PM e Polícia Civil não comentaram as conclusões da HRW. O espaço segue aberto para manifestação das autoridades.

Leia também

Deixe um comentário