Operação na Maré deixa um morto, 12 baleados e fecha 41 escolas

Uma operação da Polícia Militar no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, terminou com um morto, 12 pessoas baleadas — entre elas uma criança de 12 anos.

Uma operação da Polícia Militar no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, terminou com um morto, 12 pessoas baleadas — entre elas uma criança de 12 anos., um adolescente de 15 e um policial — e sete presos nesta segunda-feira (28). A ação, que começou durante a madrugada, em meio às festas de São Cosme e São Damião, também deixou 41 escolas municipais sem aulas e suspendeu o atendimento em quatro unidades de saúde da região.

Segundo a PM, cerca de 200 agentes participaram da ação, que teve como alvo o Terceiro Comando Puro (TCP), facção que controla parte das 16 favelas do conjunto. As equipes entraram em quatro comunidades, entre elas Vila do João, Morro do Timbau e Baixa do Sapateiro, apoiadas por sete veículos blindados e aeronave. Foram apreendidos 12 fuzis, cinco pistolas, granadas e drogas.

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Balanço da operação

De acordo com o balanço divulgado pela corporação e reproduzido pela Agência Estado, sete suspeitos foram presos. Os feridos foram levados ao Hospital Federal de Bonsucesso e ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha. O homem morto não teve a identidade divulgada até a última atualização desta reportagem.

O policial militar foi atingido no braço e, segundo os relatos publicados pela imprensa, não corre risco de morte. A criança de 12 anos foi ferida na cabeça — há versões diferentes sobre a causa, que vão de tiro de raspão a estilhaço de granada — e foi transferida para o Getúlio Vargas. O estado de saúde dos demais feridos não havia sido detalhado.

Os números variaram ao longo do dia. Nas primeiras horas, veículos informavam cinco baleados; balanços posteriores chegaram a 9 e, depois, a 12. Um dos boletins mencionou 13 presos e a apreensão de 62 quilos de maconha, dado que não constava na contagem oficial reproduzida pela Agência Estado. A reportagem manteve os números mais recentes confirmados em mais de uma fonte.

Confronto em meio à festa de Cosme e Damião

A operação começou por volta das 2h, segundo relatos, com intenso tiroteio nas primeiras horas. Criminosos montaram barricadas para dificultar o avanço das equipes. Porta-voz da ação, o major Maicon Pereira afirmou que houve confronto no início, mas que a situação foi estabilizada ao longo da manhã e que a PM continuaria no complexo.

O momento escolhido foi alvo de críticas de moradores. No fim de semana e na virada para segunda, a Maré ainda tinha ruas movimentadas pelas comemorações de São Cosme e São Damião, tradicionalmente marcadas pela distribuição de doces a crianças. “Havia muitas crianças na rua por causa de uma festa de Cosme e Damião. Não respeitaram os moradores”, disse o motorista Éverton Pereira, morador da região, em relato publicado pela imprensa. Ele também afirmou que blindados arrastaram carros estacionados.

Escolas e postos de saúde fechados

O impacto sobre os serviços públicos foi imediato. Na rede municipal, 41 unidades de ensino suspenderam as aulas, e duas escolas estaduais também não funcionaram. Quatro unidades de atenção primária interromperam o atendimento, o que afeta consultas, vacinação e visitas domiciliares de agentes comunitários.

A Maré tem cerca de 140 mil moradores, segundo o Censo Maré, e fica entre três das principais vias da cidade: Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela. Operações na área costumam provocar reflexos no trânsito e no transporte de quem circula entre a Zona Norte, a Baixada Fluminense e o Centro.

MP pede imagens das câmeras corporais

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) solicitou os relatórios da operação e a preservação das imagens das câmeras corporais usadas pelos policiais. A medida segue os parâmetros fixados pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADPF 635, a chamada ADPF das Favelas, que estabeleceu regras para operações em comunidades do estado, como a comunicação ao MP, o uso de câmeras e cuidados redobrados em áreas próximas a escolas e unidades de saúde.

A PM sustenta que ações desse tipo são necessárias para retirar de circulação armamento pesado e conter o domínio territorial das facções. A apreensão de 12 fuzis em uma única operação é considerada relevante pelas forças de segurança, já que esse tipo de arma está no centro dos confrontos armados na região metropolitana. Organizações da sociedade civil e especialistas, por outro lado, cobram há anos que as incursões levem em conta o risco à população, especialmente quando atingem crianças e paralisam escolas e clínicas.

Histórico de operações e contexto eleitoral

A Maré é uma das áreas mais afetadas por operações policiais no Rio. Em maio deste ano, uma ação da Polícia Civil na Nova Holanda, dentro da segunda fase da Operação Torniquete, deixou um morto, levou ao fechamento da Linha Vermelha e também suspendeu aulas em 41 escolas. Em outubro de 2025, a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, vizinhos à Maré, tornou-se a mais letal da história do estado, com mais de uma centena de mortos, e reacendeu o debate nacional sobre a política de segurança fluminense.

A ação desta segunda ocorre a menos de uma semana do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, em que a segurança pública é um dos temas centrais da disputa pelo governo do estado.

O que acontece agora

A identificação do morto, a atualização do estado de saúde dos feridos — em especial da criança — e a análise das imagens das câmeras corporais pelo MPRJ devem definir os próximos desdobramentos do caso. A Secretaria Municipal de Educação deve informar se as aulas serão retomadas normalmente nesta terça-feira (29). O Correio da Cidade Online segue acompanhando a situação no Complexo da Maré.

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