Anvisa aprova 1ª pílula para obesidade; preço ainda não saiu
Anvisa aprova Wegovy em comprimido, o 1º GLP-1 oral para obesidade. Exige receita; preço não saiu e chegada às farmácias é prevista para o próximo trimestre.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta quarta-feira (4) o primeiro medicamento da classe dos agonistas do GLP-1 em comprimido para o tratamento da obesidade no Brasil: o Wegovy oral, à base de semaglutida. Até agora, o Wegovy só existia no país como solução injetável aplicada sob a pele, as chamadas “canetas emagrecedoras”. A nova apresentação é indicada para adultos com obesidade, ou com sobrepeso associado a comorbidades, como complemento a uma dieta saudável e à atividade física.
Apesar da aprovação, o comprimido ainda não chegou às farmácias. Segundo a Tribuna de Jundiaí, a fabricante, Novo Nordisk, informou que o lançamento deve ocorrer no próximo trimestre, e o preço oficial ainda não foi definido junto à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). A venda exige prescrição médica. O registro foi publicado no Diário Oficial da União, a partir de pedido feito em janeiro.
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Para quem vive no Rio, em Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí, a novidade chega em um cenário de excesso de peso elevado. Dados do Vigitel, inquérito do Ministério da Saúde divulgado em janeiro, apontam que 25,7% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal tinham obesidade em 2024, e 62,6% estavam com excesso de peso. Os números são do conjunto das capitais; as fontes consultadas não detalham percentuais específicos do Rio.
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O que muda com o comprimido
O Wegovy oral é tomado uma vez ao dia, com escalonamento gradual da dose: começa em 1,5 mg, passa para 4 mg e 9 mg e chega à dose diária de manutenção de 25 mg. O medicamento deve ser ingerido em jejum, com pouca água, e o paciente precisa aguardar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou tomar outros remédios. A Anvisa informou que a transição entre as formulações oral e injetável é possível “quando clinicamente apropriado”, conforme a bula.
Em nota, a agência afirmou que a semaglutida atua na regulação do apetite e da ingestão alimentar, promovendo redução do peso corporal e melhora de parâmetros metabólicos associados à obesidade. A Anvisa também destacou que a nova apresentação traz mais flexibilidade terapêutica a pacientes e profissionais de saúde. A obesidade é classificada como doença crônica, progressiva e multifatorial, associada a diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, doenças cardiovasculares e apneia do sono.
O que mostram os estudos
A aprovação se apoia no estudo de fase 3 OASIS 4, publicado no periódico New England Journal of Medicine, com adultos com obesidade ou sobrepeso e comorbidades, acompanhados por 64 semanas. De acordo com a Tribuna de Jundiaí, a perda média de peso foi de 13,6% com a dose de 25 mg, contra 2,2% no grupo placebo. A Agência Brasil resumiu o resultado como perda média “superior a 13%”, com melhora de marcadores cardiometabólicos. O estudo comparou o medicamento a placebo, e não a outros tratamentos.
Preço, farmácias e SUS
Sem preço definido, não é possível estimar o custo mensal do tratamento, um fator decisivo em um mercado em que as canetas injetáveis já pesam no orçamento de quem as usa. Em 1º de novembro, a Anvisa havia divulgado o registro de cinco novas canetas injetáveis de semaglutida e liraglutida, de laboratórios indianos, o que elevou para 20 o total de canetas de GLP-1 aprovadas pela agência em 2026.
No setor público, o Ministério da Saúde informou em setembro que o SUS vai ofertar medicamentos dessa classe, com base em estudos e em um protocolo clínico. A pasta acompanha 250 pacientes do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, e avaliou como positivos os primeiros resultados. A nota não trouxe prazo, orçamento nem critérios nacionais de acesso. O registro sanitário da Anvisa e a oferta pelo SUS são etapas distintas, e a incorporação costuma passar por avaliação da Conitec, comissão do Ministério da Saúde. A reportagem não localizou, nas fontes consultadas, anúncio da Secretaria de Estado de Saúde do RJ ou das prefeituras da região sobre a oferta do comprimido.
Alertas e contrapontos
A expansão do uso de medicamentos da classe também preocupa as autoridades. Em maio, a Anvisa lançou um plano de farmacovigilância ativa para monitorar efeitos colaterais dos agonistas de GLP-1, após 2.965 notificações de eventos adversos entre 2018 e março de 2026, com predominância de casos ligados à semaglutida. O diretor Thiago Lopes Cardoso Campos afirmou que o uso “tem se expandido para situações fora das indicações aprovadas, frequentemente sem acompanhamento clínico adequado”.
Diretriz da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), divulgada em abril, recomenda que o tratamento farmacológico não seja usado isoladamente, mas sempre associado a mudanças de estilo de vida, com aconselhamento nutricional e atividade física. O documento indica o tratamento para IMC igual ou superior a 30 ou, a partir de 27, quando há complicações relacionadas ao excesso de gordura. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alertou em agosto contra o uso por adolescentes sem indicação médica e listou, entre os eventos comuns da classe, náuseas, vômitos, refluxo e diarreia, sobretudo na fase de aumento da dose, e, entre os potencialmente graves, pancreatite e problemas na vesícula.
O que esperar
A chegada de uma opção oral amplia o leque de tratamentos disponíveis, mas não altera a necessidade de avaliação médica individual, prescrição e acompanhamento. Os próximos passos a observar são a definição do preço pela CMED, a data efetiva de chegada às farmácias, as condições de uso informadas na bula e a eventual posição do SUS sobre o comprimido. A reportagem seguirá acompanhando o tema e atualizará o texto caso a Novo Nordisk, o Ministério da Saúde ou as secretarias de saúde do estado e dos municípios divulguem novas informações.



